Uma Rosa no Adro – “Eram jovens, menos jovenzinhos mas a angústia afastou-os para sempre”

Uma Rosa no Adro – “Eram jovens, menos jovenzinhos mas a angústia afastou-os para sempre”

Na cidade grande, os sinos tocam e as pessoas não viram o rosto, não retiram o chapéu, não baixam o olhar. Assim foi quando Idalina morreu.
Tinha morrido só no andar de um prédio sem elevador.

Tinha morrido sem pena que a vida por vezes também se decide sem mãos no caminho. E mesmo que sem caminho, outrora todos tiveram sua história. Idalina também teve as suas. Roberto tinha-lhe tirado a vontade de sonhar  depois de um pequeno erro que a atraiçoara.
Eram jovens, menos jovenzinhos mas a angústia afastou-os para sempre.

 

Sem adeus. Sem conversas, que estas coisas sabem-se. Sem dramas que a dignidade que resta assim os dispensou. Mas não desprende a dor, cola-a ao âmago, dá-lhe vida, propósito e mata, vai matando, vai destruindo. Fica sem brilho, sem cor, só existência sem essência.
Assim continuou para ela, a vida. Da sorte dele, ela sempre a ignorou mas era fácil imaginar.

De desenganos está a imaginação cheia. Sobretudo quando já se foi tão feliz, tão livre, tão solto.
Ao velório de Idalina sombrearam o Padre e os denominados da Santa Casa para estas eventualidades da solidão. Ao funeral de Idalina, arrastaram-se o Padre, os funcionários da funerária e os coveiros da Câmara Municipal. Do funeral de Idalina, soube Roberto. Sim, estas coisas sabem-se. Da proximidade da morte, sentiu-a Roberto. Sim, estas coisas sentem-se.

Não, não se explicam. Mas podemos imaginar.

Tentar, sortear um pensamento e sorrir no fim.
Roberto soube-o num momento que julgou tardio. Enfraquecido mais pelo desgosto do que pela idade, sentiu-se de novo o traidor. Ela não saberia agora que ele estava ali, mas uma pessoa obriga-se a acreditar que sim, que faz diferença.
O homem corria como podia quando os coveiros já tinham baixado o caixão à terra.

Um deles, o mais velho, apercebeu-se da figura desolada ao longe, com a mão esquerda a acudir ao joelho direito, com a mão direita a acudir ao coração, com o desespero a acudir à culpa.

Iam começar a usar as pás, sem nenhum familiar a quem pedir licença, quando o ancião coveiro parou o colega.
Agarrou-lhe no braço, levantou o queixo.

Palavras poucas que muitas de nada servem.
– Amigo, vem comigo.
Disse ao homem ofegante:

– Aguarde!

Voltaram à campa e desenterraram a mulher, um esgar serviu ao Padre, repetiram-se os ritos.

Aquele homem precisava de estar ali.

– Cheguei, meu Amor. Adeus.

 

TEXTO DE HEITOR NUNES

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