Como se manipula um jogo de futebol

A acusação do processo conhecido como Jogo Duplo, que começa nesta quinta-feira a ser julgado no Campus da Justiça, parece um manual de como viciar resultados. Três dos 28 arguidos continuam em prisão domiciliária.


Contactos e dinheiro. Basicamente são estes os dois ingredientes necessários para viciar um jogo de futebol da II Liga. A comprová-lo estão as mais de cem páginas da acusação do processo Jogo Duplo, que começa nesta quinta-feira a ser julgado no Campus da Justiça, em Lisboa. O processo já passou pelo crivo de um juiz de instrução, que em Setembro do ano passado decidiu levar a julgamento todos os acusados do caso.

No banco dos réus vão sentar-se 28 arguidos, três dos quais continuam em prisão domiciliária, vigiados por uma pulseira electrónica. Ficaram privados da liberdade no rescaldo da operação lançada pela Unidade Nacional de Combate à Corrupção da Polícia Judiciária, em Maio de 2016, e ainda não a recuperaram face ao receio da Justiça de que continuem a actividade criminosa. Um deles é um destacado membro da claque do FC Porto Super Dragões.

Apostar na derrota da própria equipa
Além de receberem “luvas” para prejudicarem a sua equipa, alguns jogadores terão aproveitado o facto de saberem de antemão que um jogo estava manipulado para apostarem em sites da especialidade que operam em Portugal ou no Placard, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Outros não entrariam nos esquemas de corrupção, mas aproveitavam o conhecimento que tinham dessa situação para ganhar um dinheiro extra.
Isso mesmo terá acontecido em Abril de 2016, quando um jogador do Oriental que tinha sido corrompido para facilitar a vitória do adversário, no caso o Penafiel, apostou com um colega de equipa 350 euros na derrota do próprio clube. A aposta rendeu, de lucro, 345 euros, que acabaram por ser divididos pelos dois e por mais um amigo.
Em Janeiro desse ano, já dois jogadores do Estarreja que tinham passado antes pela Oliveirense, sabendo que a vitória do Oriental sobre o Leixões estava garantida, investiram 490 euros no Placard, tendo conseguido um lucro de 600 euros, que dividiram pelos dois.
São cinco os arguidos que o Ministério Público acusa pelo crime de aposta ilegal, dois dos quais só respondem por este tipo de imputação.

A maioria dos arguidos são jogadores de futebol ou antigos profissionais com contactos no meio, mas também há treinadores e dirigentes desportivos. Do rol faz até parte uma sociedade anónima que controla um clube, o Leixões, acusada de corrupção activa. Quase todos respondem por corrupção desportiva, mas há um grupo de seis que está acusado de associação criminosa. Há ainda cinco arguidos a quem foram imputados crimes de apostas ilegais, por alegadamente não terem resistido à tentação de ganhar uns extras através de apostas em jogos em que tinham intervenção — logo, estavam proibidos de o fazer.

Fora da acusação ficaram três cidadãos malaios, identificados no processo, que seriam os “investidores”, como eram apelidados por alguns dos arguidos. Eram eles quem financiava a viciação dos resultados e, desta forma, garantia que as apostas feitas a nível internacional eram bem sucedidas. Estes estrangeiros viajaram várias vezes para Portugal e o seu papel, segundo a acusação, seria transportar o dinheiro usado para pagar as “luvas” de jogadores e as comissões dos intermediários que os contactavam.

in PUBLICO/MARIANA OLIVEIRA

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